quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Movimento fogo

O corpo bicicleta. O corpo rasga vento. O rosto ardor. O sol céu. Céu sol céu. Os pensamentos céu. Sol cabeça. A paisagem mental. O medo e a adrenalina. O GPS, o engano. A voz autômata mentira, os ciclos círculos, as voltas voltas. As pessoas. As piscinas. A fumaça, a fumaça. As curvas nuas. Ruas. A insistência. Sei lá pelo que. O risco. O espírito aventura. O exorcismo. A ponte. O corpo não lugar. Flutua. Farol arde. Pele muda cor. Pedal passarinho. Rodas nuvens. Estratosfera. Completo vazio.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Crente

Há um vírus
morando aqui

Implantado
num coração bebê

Que cresceu
Se tornando algo

Que se imagina alguém
Que olha pro coração

E vê
um vírus
implantado
morando aqui



terça-feira, 13 de setembro de 2016

WTF

Eva e Adão viviam nus: assim está escrito. Até que os dois comeram a famosa fruta, e então, ops!, perceberam que estavam nus. Essa é a minha parte preferida: a percepção da nudez. E daí que estavam nus? Imagino que se eu nascesse (ou surgisse do barro) em um lugar onde a roupa ainda não foi inventada, cercado por outros bichos que também andam pelados, estaria bem ok com isso.

Só que não. Quando "perceberam" que estavam nus, "meu Deus!", eles se tamparam, e assim estamos até hoje: vestidos. Esse é o legado de Eva e Adão: a invenção da roupa. Não conheço, particularmente, outra narrativa mitológica que dê conta de explicar exatamente isso: por que o ser humano se veste? Assim como o homem é o único animal que ri, é o único que fica pelado (porque os outros simplesmente o são). Então é isso que significa ser racional? Ah tá.

A região do ventre guarda o "baixo corporal", responsável pela excreção do "lixo" que o corpo produz (a morte), e ao mesmo tempo onde se encontram os órgãos genitais, responsáveis pela reprodução (a vida) e pelo prazer sexual, que também é uma PUTA necessidade fisiológica (Bakhtin, 1987).

Por algum motivo, sentimos vergonha disso. Não é que sintamos vergonha especificamente daquilo que nos dá prazer, nem daquilo que é por onde saem as excreções, nem daquilo que é responsável pela procriação. Sentimos vergonha desse "combo" vida-morte-prazer.

Desde a Idade Média até hoje, a topografia corporal é rebaixada do "céu" (a cabeça, onde estão as idéias e a razão) à "terra" (o ventre, onde são enterrados os mortos e de onde surge a vida) em expressões como "vai se foder","vai cagar", "levou uma mijada", "filho da puta", "caralho", "escroto", "buceta", etc, que são considerados "palavrões". Tais expressões não devem ser ditas, e sim mantidas guardadas na cueca, calcinha e sutiã. Enquanto isso, os cachorros se cumprimentam cheirando o cu. Wtf?

Feitas essas considerações, só posso tirar duas conclusões:

1. Se Eva e Adão não tivessem comido a fruta, hoje em dia mandaríamos todo mundo se foder e todo mundo estaria de boa com isso.

2. O ser humano tem vergonha de ser animal.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Dona Olga



O ônibus não passava. Já fazia meia hora e nem sinal. Pensei em ir para a outra parada, a da avenida, mas meu sentido místico não me permitia. Sabia que assim que saísse dali o ônibus chegaria.



Resolvi esperar mais uns minutos.



Quando dei por mim, senti uma mão delicada no meu ombro: era uma pequena senhora, devia ter uns setenta ou oitenta anos. Aquele sorriso acompanhado de grandes óculos e uma penugem que mais parecia lã de ovelha me transmitiam uma energia tão boa que nem sabia explicar.



- Olá, você sabe se aqui passa o Alto Florida?

- Passa sim. Passou um agorinha mesmo - respondi.

- Poxa vida, quase que consigo pegá-lo!

E deu um sorriso maroto. Logo depois disso, ficamos conversando amenidades, como velhas comadres até que a simpática senhorinha me perguntou: "Estou indo ao museu, quer ir comigo?". Fiquei assustada com o convite assim, de supetão, mas aceitei.



Nesse dia ganhei uma avó.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

DEDICATÓRIA e AGRADECIMENTOS

Como parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Bernard Freire, no curso de Licenciatura Plena em Teatro, da UFPA.

Dedicado: ...à Deus, a imaginação e ao mundo.

Agradecimentos: ao casulo da família, ao meu pensamento artístico por vocação, aos lugares artísticos: antigo grupo de teatro e coro cênico da UNAMA, A Casa da Atriz, A Casa Dirigível, as ruas e calçadas e aos pontos de arte e comunicação de saber, aos grupos e extensões que me direcionaram a esse fazer teatral. A turma de Teatro 2012 (Travestruzes, Disney, Ratas); aos coletivos: ENECOS e Vamos à Luta; aos amigos artistas dessa cidade de Belém. Aos amigos: Tiago Júlio, Cléber Cajun, Mônica Gouveia, Rogério Guimarães, Adriano Abbade, Raynéia Machado, Júlio Miragaia, Evelyn Loyla. A toda forma de se viver nesse mundo, aos passos lentos, as ocupações, aos livros, as rodas de conversas nos bares, ao silêncio sonoro, aos momentos de produção e conhecimento de cada tempo, a juventude, as artes invisíveis, aos projetos que apareceram nesses anos de curso, ao ENEARTE, as aventuras que se tornaram histórias memoráveis. A Magaly Caldas pelo companheirismo, ensinamento e ideias sobre a geografia do mundo. As raízes de pensamentos que se firmaram nos caminhos da pesquisa.  Aos blogs:

Teatro Cláudio Barradas - http://teatrobarradas.blogspot.com.br/
Rhuanne Pereira - http://www.rhuanytta.com/
Blog Psicodélica Imaginária ¬- http://psicodeliaimaginaria.blogspot.com.br/
Instituto de Ciência das Artes/ICA/UFPA - http://www.ica.ufpa.br/
Douglas Cirqueira - http://douglascirqueira.wix.com/

As viagens, a vida universitária, as pesquisas e desbravamento dos dias, aos amores que davam a real importância de viver o ciclo acadêmico. A ação, a modificação dos dias, a mudança por passos lentos, ao espaço visto da janela, aos cantos, a vida acadêmica e expressões de conhecimentos, aos professores que toparam a proposta da pesquisa, ao destino que se segue agora, a revolução da arte, da vida, ao esgotamento da mente, corpo, liberdade do ser, a catarse, a tudo isso aqui agora. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Mosquito


Enquanto Cecília digitava uns mil e quatrocentos toques para aquela pauta chata de quarta-feira, ouviu aquele "zum" perturbador. Era aquele zunido em branco, invisível, mas que nunca passava despercebido.

Pssssss.
Zummmmmm.
Clap!

Não morreu. Mosquito safado.

Aquela dor pequena e insuportável chegava a ser angustiante. A alergia não ajudava. De repente vinha a coceira. A perna direita cheia de marcas vermelhas e avantajadas. Não sabia o porquê da obsessão pela perna direita!

Teve uma revelação absurdamente inteligente: "por que não uso o repelente?". Cecília correu e alcançou o vidrinho de repelente antes que o mosquito tivesse a ideia de picá-la novamente. Espirrou nos lugares favoritos do vilão e, quando chegou na perna direita, conseguiu enxergar aquele pequeno ponto vindo em direção à ela.

Lá vinha ele de novo. "Dessa vez eu consigo te ver, safadinho. Vem cá, vem. Vem cáááá"- PAF!

E lá se foi uma vida de provedor de pequenas angústias e desesperos.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Xícara

Por Delianne Lima

É tudo assim, à queima roupa. A angústia sangra à medida em que o coração dá sinal de vida. Batida, batida, batida. Tudo termina em um piscar de olhos. Histórias intermináveis e uma relação profunda de amor e companheirismo pode terminar em um ranger de dentes. Com força.

Depois de ler aquelas poucas linhas, a garota mal sabia o que pensar. Apenas percebia aquela sensação estranha no estômago. Era o frio. Eram as borboletas. Só que não era paixão, era o susto. A tristeza rondando feito mosca, esperando o momento certo para pousar no prato principal do jantar.
- Posso te ver de novo?
- Não, você é casado. Não me liga mais, estou na casa do macho. Você só queria ver as minhas fotos, eu sei.
- Você é esperta. Ou eu sou óbvio demais.
- É, você é óbvio mesmo.

E esse era o diálogo da revelação. Palavras bestas, idiotas, mas com um poder de fogo feroz.

Tábata nem sabia o que fazer. Enquanto Paulo estava na cozinha, ela tentava tatear em busca de alguma reação, alguma forma de entender o que acontecia. Era claro, Paulo havia traído Tábata.

Xícaras de café não servem de desculpa. Não bastava apenas isso para que ela esquecesse. Nem sabia se deveria esquecer. Nunca esqueceria. Seus pés mal a aguentavam em pé, mas sua vontade de ir embora era maior.

Saiu. A porta estava aberta.